Ser Músico em 1979 ( Não vais Acreditar Nisto…! )

Ontem o Meu Amigo Rui esteve aqui em minha casa. Gravámos umas pistas de baixo no meu tema  “Should We All Betray“. Quando acabámos, ficámos em alegre cavaqueira sobre a nossa juventude, a nossa banda TV5 e as músicas que tocávamos na altura…..

Aconteceu Depois Algo – Decidi fazer-vos este texto:

…Decorria o ano de 1979, eu tinha 15 anos,  adorava cantar e tinha sido convidado pelo Rui para integrar uma banda profissional que fazia mais de uma centena de espectáculos por ano.

Embora na altura já tivesse composto as minhas primeiras canções, ninguém estava interessado em escutá-las. Na altura e tal como talvez ainda hoje, para se ter acesso a equipamentos profissionais e tocar com uma banda em eventos com centenas, muitas vezes milhares de pessoas a escutarem-te, necessitavas de tocar “covers” de músicas conhecidas, sucessos nacionais ou internacionais.

O processo foi rápido – A Banda TV5 necessitava de um cantor, pois o Nelito ia sair. Fui a uma audição, na Ordasqueira, numa adega de piso térreo, onde as pipas de vinho dividiam o espaço com os instrumentos e os amplificadores.

Entrei e decerto os meus olhos brilharam com a imagem dos instrumentos na sala de ensaio  :  Uma bateria Tama Royal Star que era a menina dos olhos do Pedro, uma Ibanez Goldtop com dois pickups Dimarzio, do Luís, Um baixo eléctrico  Hondo II, que pertencia ao Rui e um grande e pesado teclado Intercontinental .

Tama Royal Star
Ibanez Goldtop
Hondo II
Montarbo head
Montarbo speakers
intercontinental
Mercedes L319

A adega, os instrumentos comuns, A velha Mercedes L319  que transportava os músicos, os contratos para os espectáculos, em suma, o grupo TV5, pertencia  ao Sr. Quim Miranda.

Deram-me um microfone Shure SM58 , ligaram-no á aparelhagem Montarbo que iria amplificar a minha voz e disseram-me onde era o botão de volume e como funcionava. Ná altura não existiam sistemas de P.A. então cada qual amplificava o próprio sinal e tentava furar no meio daquela mistura anárquica que funcionava. A bateria era o único instrumento que se mantinha acústico. No fundo os espectáculos faziam-se então, em termos de som, como hoje se ensaia em bandas com menos recursos.

Na minha audição, cantei uma música dos Queen e todos ficaram contentes com a minha prestação. No fim da música, todos sorriam e acenavam positivamente com a cabeça, deu para entender qiue eu iria ser aceite – Era um Sonho Tornado Realidade.

Nas semanas que se seguiram, começámos a ensaiar e comecei a entender um pouco mais do que era ser cantor numa banda – Aprendi que o amplificador do Rui era um Fender, sempre, tal como o seu baixo, imaculado e que o Luís tocava num velho HH, que todos diziam ser “material de combate“-  Isso já caiu 20 vezes, está sempre a tocar, até parece que de cada vez que cai, fica com melhor som . Foi tempo para escutar as músicas, aprender as letras, aprender a cantá-las, escutar os colegas da banda, pôr a música a soar, como nós então dizíamos. Está a Soar…  Está a ficar Bom… 

E Durante umas semanas enquanto ia ensaiando, ia aos espectáculos, escutava a banda a tocar e o Nélito a cantar, ficava a pensar que o Nélito dava-lhe com alma… muito emocional, afinado e sério no que fazia. E assim ia aprendendo as canções. Passados uns anos, deram-me a triste notícia de que tinha ido para outro palco… R.I.P. era boa pessoa e cantava com verdadeira paixão.

Agora vamos aqui a uns pormenores…

Não existia Internet, nem telefones móveis, nem YouTubeSpotify, ou Apple Music, só talvez 10% da população  tinha telefones fixos, smartphones não eram sequer ficção científica e o 1º Iphone só apareceria 30 anos depois.

A Música tinha que se comprar, ou então alguém tinha que nos emprestar o disco em vinyl caso tivéssemos um gira-discos, ou ainda, talvez nos pudessem passar uma cassete com a gravação da música, se tivéssemos algo para as tocar em casa.

A Música ia passando de mão em mão, ou então íamos escutar música para a casa uns dos outros, porque os discos não se emprestavam, salvo em  raros casos de pessoas em quem confiávamos quase cegamente, pois os discos podiam riscar-se se não fossem tratados com cuidado ou tocados em equipamentos maus, ou simplesmente desaparecer, se nos esquecêssemos a quem tínhamos emprestado. Como a música era algo muito exclusivo, ter muitos discos de boa música dava status e nem toda a gente gravava cassetes, pois ou não existia equipamento para gravar com qualidade, ou não existia a vontade de o fazer. Existia ainda a possibilidade de escutar a rádio e logo que tocava uma música que gostávamos, ir a correr para o gravador e premir o botão de REC, mas até para gravar as músicas tinha que se saber… Uma cassete novinha e muita atenção para que o posto estivesse bem sintonizado e depois começar a gravar só depois de o locutor se calar, pois os locutores na altura falavam muito por cima das músicas e acabar de gravar antes de o locutor começar a falar outra vez dizendo o nome da canção e o artista, embora muitos optassem por gravar também essa parte.

Já viram que não era fácil escutarmos a música de que gostávamos, até porque para o fazermos, só por sorte, se tocasse na rádio, ou em casa, se tivéssemos o disco ou a cassete, pois o Sony Walkman só apareceria mais de 10 anos depois.

Voltando á banda TV5 e ao motivo deste texto, para ensaiar, necessitávamos de ter o disco ou a cassete da música que íamos tocar. Como não existia internet, não existia partilha de acordes ou letras online. Os acordes teriam de ser tirados pelos instrumentistas e a letra pelo cantor. Muitos cantores na altura não tinham a mínima noção acerca de falar inglês e as letras que tiravam era uma aproximação fonética do que se ouvia. A malta cantava sem ter a mínima ideia do que estava a dizer e de qual o sentimento por detrás da letra. Os papéis com as letras das músicas eram algo para se manter longe da vista de quem sabia inglês, pois poderiam ser razão para umas boas gargalhadas.

Para os ensaios na banda TV5 recebi umas cassetes para escutar em casa com talvez 70% do repertório, o resto eu teria de ouvir o Nélito e aprender a música com ele. Lógico que em relação ás letras, teria de utilizar as letras dele, a única solução possível. Com sorte, o Nélito tinha as letras de todas as músicas das quais não existiam gravação, que tinham sido retiradas dos discos, pois muitos discos traziam as letras.

Ontem, em conversa com o Rui, enquanto relembrávamos as músicas que tocávamos no TV5, íamos escutando algumas delas no YouTube.. ouvimos Sammy Hagar – Young Girl Blues versão ao vivo do àlbum Red, ouvimos Chris de Burgh – The Traveller…. e por aí…

Hoje abri o meu browser e tinha no YouTube  a música do Chris de Burgh… Pus a tocar e confirmei a sensação que tive ontem. Apesar de ter tocado essa música centenas de vezes em palco para milhares de pessoas, eu nunca tinha escutado antes a versão original.

Aprendi essa canção a escutar a banda e cantei a letra que tinha sido tirada do disco, mas nunca antes a tinha escutado. Todos aqueles anos, eu estive a copiar não foi o Chris de Burgh, estive a copiar os TV5 e o Nélito, cantando a letra original do Chris de Burgh.

Bons Tempos!

Irei voltar a falar-vos mais acerca destes tempos.

Cumprimentos a Todos.

Carlos Ruivo

PS : Podem Deixar os Vossos Comentários.

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